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O
Brasil do interior soa nas cordas de uma viola
Rosa Nepomuceno/CliqueMusic (colaborador@cliquemusic.com.br)
1/1/1900
Os cantos religiosos dos jesuítas e as modinhas trazidas
pelos portugueses colonizadores misturaram-se à música
e à dança dos índios senhores das terras recém-descobertas.
Daí surgiram gêneros que se enraizaram especialmente
na região sudeste, depois no sul e centro-oeste do país,
integrando a que ficou conhecida como "música caipira",
como os catiras e cururus, as toadas e modas de viola. A viola cavada
num tronco de árvore, com cordas feitas de tripas de animais,
e depois de arame, foi sacramentada, na cultura rural, como seu
instrumento-base. Entre as palavras do Brasil colonial surgidas
do tupi e da mistura do idioma indígena com o português
estão, por exemplo, "caipira", junção
de caa (mato) com pir (que corta), e cururu, que veio de curuzu
ou curu, que era como os índios tentavam dizer cruz.
Catequistas
se moviam
pra provar o seu amor
aos nativos que temiam
o estranho invasor
mas ouvindo o som mavioso
de uma viola a soluçar
o selvagem, cauteloso,
espreitava, a escutar.
(Assim Nasceu o Cururu, Cap. Furtado e Laureano)
O
cururu nasceu, pois, dos cantos religiosos marcados por batidas
de pé. Das festas ao redor dos oratórios ganhou os
terreiros, nos acontecimentos sociais das fazendas e vilas. Nos
anos 30, Mário de Andrade viajou pelo interior paulista,
nas suas pesquisas, e observou que no médio-Tietê cururu
era desafio improvisado, uma espécie de "combate poético"
entre violeiros-cantadores, iniciado com saudações
aos santos. Dessa forma ele ainda resiste em cidades como Piracicaba,
Sorocaba, Tietê, Conchas e Itapetininga a chamada região
cururueira do estado. Entre os cururueiros mais famosos do disco
estão os irmãos Vieira e Vieirinha, de Itajobi, SP
(o segundo, morto em 1990), que brilharam nos anos 50.
O
catira ou cateretê surgiu de uma dança indígena,
o caateretê, também adotada nos cultos católicos
dos primórdios da colonização. As bases mais
sólidas de seu reino se estabeleceram em São Paulo
e Minas Gerais. Com solos de viola e coro, acompanhados de sapateado
e palmeado, ele começa com uma moda de viola, entremeada
por solos, e evolui para uma coreografia simples mas bastante rítmica.
O clímax, no final, é o "recortado", com
viola, coro, palmeados, sapateados e muita animação.
O catira é o coração de festas populares como
as Folias de Reis e as de São Gonçalo, hoje particularmente
expressivas no interior mineiro. Entre grandes catireiros estão
Tonico e Tinoco (o primeiro, morto em 1994), que registraram incontáveis
sucessos nos anos 40 e 50. Atualmente, entre os novos-caipiras,
o mineiro Chico Lobo é violeiro-cantador que domina essa
velha arte.
O
fandango, por sua vez, nasceu como dança vigorosa de tropeiros
que o aprenderam no extremo sul do país, com seus colegas
uruguaios. Sofreu modificações nas diversas regiões
onde chegou e ainda é cultivado em alguns núcleos
por todo o país, como no litoral paranaense. Resultante da
mistura da música dos brancos da roça com a dos negros
escravos, o calango firmou-se especialmente no Rio de Janeiro rural
e em Minas Gerais. Martinho da Vila, fluminense de Duas Barras,
compôs e gravou alguns bons calangos, puxados na viola e com
instrumentos percussivos.
A
moda de viola se destaca
Entre tantos ritmos e estilos formados a partir das toadas, cantigas,
viras, canas-verdes, valsinhas e modinhas, trazidos pelos europeus,
a moda de viola se transformou na melhor expressão da música
caipira. Com uma estrutura que permite solos de viola e longos versos
intercalados por refrões, com letras quilométricas
contando fatos históricos e acontecimentos marcantes da vida
das comunidades, ela ganhou vida independente do catira. E seduziu
grandes compositores, como os paulistas Teddy Vieira (de Buri) e
Lourival dos Santos (de Guaratinguetá), já falecidos,
bastante ativos entre os anos 50 e 60. Atualmente, os mineiros Zé
Mulato e Cassiano estão entre os bons compositores e cantadores
de modas de viola.
À
medida que o país se urbanizou e precisou da mão de
obra barata do povo do interior, levas de artistas caipiras e nordestinos
também chegaram a São Paulo e ao Rio de Janeiro para
disputar seus palcos e estúdios. Assim, emboladas e cocos
se misturaram a maxixes, guarânias, rasqueados, chamamés,
boleros, baladas e rancheiras e a tudo o que se ouvia no
rádio nos anos 50 e nas fronteiras do país. Todas
essas matrizes sonoras formaram, com os gêneros caipiras tradicionais,
o que passou a ser sacralizado, na terminologia do mercado fonográfico,
como música "sertaneja". Mais sons entrariam nesse
caldeirão: a partir dos anos 60, o rock e a MPB dos festivais,
e, nos 80, a country music americana.
Entre
os marcos das diversas fases da música que nasceu na roça
e hoje, bastante modificada, embala multidões de norte a
sul do país, podemos destacar as primeiras gravações
de modas de viola e de outros gêneros caipiras por violeiros-cantadores
do interior paulista, em 1929 na série de discos produzida
por Cornélio Pires para a Columbia. Na década de 30,
vieram os sucessos de João Pacífico e Raul Torres,
de Alvarenga e Ranchinho. Já Tonico e Tinoco pontificaram
a partir dos anos 40.
Vários
estilos no saco
O apogeu dos caipiras foi nos 50: levas de duplas, especialmente
do interior de São Paulo, tiveram espaço nobre nas
gravadoras e emissoras de rádio. O filão caipira abrigou,
nessa época, as guarânias de Cascatinha e Inhana e
as rancheiras mexicanas de Pedro Bento e Zé da Estrada. Entre
60 e 70, o aparecimento de Sérgio Reis e Renato Teixeira
o primeiro saído da Jovem Guarda, o outro dos festivais
da TV Record agitou o mundo sertanejo. Exatamente em 1960
um genial violeiro do norte de Minas, Tião Carreiro, inventava
o pagode caipira, mistura de samba, coco e calango de roda (na definição
de outro tocador e conterrâneo, Téo Azevedo).
Nos
anos 80 surgiram a dupla mineira Pena Branca e Xavantinho, adequando
sucessos da MPB à linguagem das violas, e Almir Sater, violeiro
sofisticado, que passeava entre as modas de viola e os blues. A
guinada para a country music, com a adoção de instrumentos
eletrificados e a formação de grandes bandas deu-se
a partir do mega-sucesso de Chitãozinho e Xororó,
em 1982. A eles, seguiram-se outras duplas de sucesso, cada vez
mais direcionadas para o romatismo pop herdado da jovem guarda,
como Leandro & Leonardo e Zezé Di Camargo & Luciano.
Os
anos 90 marcaram a convivência de dois segmentos musicais
originários dos gêneros rurais: o dos mencionados sertanejos-pop,
voltado para grandes mercados internacionais, e o dos novos-caipiras
- músicos saídos das universidades, dispostos a retrabalhar
a música "raiz". Estes criaram um circuito de gravadoras
independentes e apresentações em teatros, entre São
Paulo e Belo Horizonte, já se irradiando até o Rio
de Janeiro. Os detonadores desse movimento foram Renato Teixeira
e Almir Sater. Entre os nomes mais expressivos dessa nova geração
de instrumentistas-compositores estão os mineiros Roberto
Corrêa, Ivan Vilela, Pereira da Viola e Chico Lobo, e o paulista
Miltinho Edilberto.
Matéria
extraída de www.cliquemusic.com.br
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